03 de Julho, 2026 09h07mCotribá por JORNALISTA CRISTIANO LOPES

COTRIBÁ: POR DENTRO DA CRISE

Série especial do jornal o Alto Jacuí reconstrói os acontecimentos que antecederam a maior crise da história da mais antiga cooperativa agrícola do Brasil

Na edição anterior, o Jornal O Alto Jacuí iniciou uma série especial para reconstruir os acontecimentos que antecederam a maior crise da história da Cotribá. A primeira reportagem apresentou a dimensão do desafio enfrentado pela cooperativa e levantou uma pergunta que orientará toda a investigação: como uma instituição que movimentava bilhões de reais, reunia milhares de associados e era referência no cooperativismo brasileiro chegou a uma dívida estimada em R$ 1,5 bilhão?
Ao longo das próximas edições, a série buscará responder essa pergunta a partir de documentos, entrevistas, informações públicas, relatos de trabalhadores, produtores, dirigentes e da própria cooperativa. O objetivo não é antecipar conclusões nem substituir o trabalho das autoridades responsáveis pelas investigações, mas reconstruir os fatos, contextualizar decisões e compreender como a crise foi se formando ao longo dos anos.

Nesta segunda reportagem, o foco está na informação que chegava aos associados enquanto a cooperativa ainda transmitia uma imagem de crescimento, estabilidade e confiança. 

 

O discurso da confiança e os fatos que vieram depois

Entre uma cooperativa que anunciava crescimento e outra que hoje tenta superar uma dívida estimada em R$ 1,5 bilhão existe um elemento que merece atenção: a informação levada aos associados.
Ao longo dos últimos anos da gestão anterior, a comunicação institucional da Cotribá transmitia uma mensagem de confiança. Assembleias, informativos, entrevistas e comunicados oficiais apresentavam uma cooperativa sólida, em expansão e preparada para enfrentar as dificuldades do mercado.
Em fevereiro de 2023, durante a Assembleia Geral Ordinária e Extraordinária realizada na Asfuca, em Ibirubá, a direção apresentou um faturamento de R$ 4,09 bilhões, crescimento de 15,8% em relação ao exercício anterior. Também anunciou a distribuição de R$ 28,9 milhões em benefícios aos associados, entre bonificações, incentivos e distribuição de resultados.
Na ocasião, o então presidente Celso Leomar Krug afirmou aos cooperados que a gestão seguiria pautada pela "transparência e diálogo", destacando o compromisso de buscar soluções mesmo diante das dificuldades do setor.
O então vice-presidente, Enio Cezar Moura do Nascimento, reforçou o mesmo discurso ao afirmar que era motivo de orgulho representar "uma cooperativa cada vez mais forte e atuante".

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Os números ajudavam a sustentar essa narrativa

A Cotribá contabilizava 9.178 associados, presença em 27 municípios, 65 estabelecimentos comerciais e capacidade estática de armazenagem de 12,9 milhões de sacas. Na mesma assembleia foram aprovados o balanço patrimonial, os demonstrativos financeiros, o parecer do Conselho Fiscal e a composição do Conselho de Administração para o mandato 2023-2025.
Durante os meses seguintes, a comunicação institucional continuou destacando investimentos, programas de incentivo e perspectivas de recuperação.
Já em 2025, quando as dificuldades financeiras começavam a ganhar espaço entre produtores e fornecedores, a direção apresentou aos associados um contrato que previa um aporte de R$ 1,04 bilhão, considerado à época uma das principais alternativas para reorganizar financeiramente a cooperativa.
A proposta foi aprovada em assembleia e apresentada como um passo decisivo para garantir a continuidade das operações.
Hoje, entretanto, esse mesmo episódio ocupa posição central na auditoria investigativa contratada pela atual gestão.
Em entrevistas concedidas durante o mês de junho de 2026, o atual presidente Carlos Waldemar Wilke Diehl afirmou que o aporte nunca chegou a existir e que aproximadamente R$ 7,8 milhões teriam sido desembolsados durante as negociações. Segundo ele, a auditoria busca identificar como a operação foi conduzida, quais decisões foram tomadas e quem participou do processo.
O caso do aporte, porém, não é o único fato revelado pela nova administração.
Também passaram a ser relatadas investigações envolvendo a venda de centenas de milhares de sacas de soja para uma trading que, segundo a cooperativa, não realizou o pagamento; operações de antecipação de recebíveis que resultaram na negativação de produtores rurais; investimentos milionários ainda sem utilização prática; além de operações financeiras que hoje são revisadas pela nova direção.
Todas essas situações integram uma auditoria investigativa ainda em andamento e, até o momento, representam relatos e apontamentos apresentados pela atual gestão, que ainda dependerão de conclusão técnica e eventual análise das autoridades competentes.

O contraste, porém, já é evidente

Enquanto os associados recebiam informações sobre crescimento, investimentos e perspectivas de recuperação, a atual administração afirma ter encontrado uma realidade completamente diferente da que era apresentada publicamente. É justamente nessa distância entre o discurso institucional e os fatos hoje investigados que a série passa a concentrar sua atenção. Mais do que compreender quando a crise se tornou pública, o desafio é identificar em que momento a realidade da cooperativa deixou de coincidir com a imagem transmitida ao seu quadro social.



 

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