
Enquanto a Cotribá anuncia o início do pagamento do primeiro lote de verbas rescisórias, centenas de ex-funcionários seguem aguardando respostas sobre quando receberão seus direitos.
As portas baixaram pela última vez. Em Fortaleza dos Valos e Saldanha Marinho, funcionários ajudavam a organizar os últimos dias de funcionamento dos supermercados da Cotribá. Em Ibirubá, trabalhadores acompanhavam a venda do tradicional posto de combustíveis da cooperativa. Em outras unidades da região, o cenário era semelhante: equipes encerravam atividades, recolhiam pertences pessoais e se despediam de colegas com quem haviam dividido anos — e, em alguns casos, décadas — de trabalho.
Para muitos deles, aquele não era apenas o fechamento de uma unidade ou o fim de um emprego. Era o encerramento de uma parte da própria história.
Quando receberam a notícia da demissão, ouviram que a cooperativa enfrentava um processo de reestruturação e que os direitos trabalhistas seriam pagos. Assinaram documentos, cumpriram os procedimentos solicitados e voltaram para casa acreditando que, apesar da despedida, teriam condições de reorganizar a vida. Mas os dias passaram. Vieram as semanas. Depois os meses. E para muitos ex-funcionários, a espera continua.
Por trás da crise financeira que colocou a Cotribá no centro das atenções do agronegócio gaúcho existe uma realidade que raramente aparece nos balanços, nos processos judiciais ou nas discussões sobre uma dívida superior a R$ 1 bilhão. Ela tem nome, sobrenome e histórias de vida.
São trabalhadores que ajudaram a construir a cooperativa ao longo de décadas e que hoje aguardam uma resposta sobre quando receberão aquilo que lhes é devido.
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Nesta semana, a Cotribá anunciou o início do pagamento do primeiro lote de verbas rescisórias. A informação trouxe esperança para parte dos ex-funcionários, mas também reacendeu dúvidas entre aqueles que continuam sem saber quando serão contemplados.
Durante entrevista à Rádio Cidade, o ex-funcionário Lauro Campos, integrante da comissão formada por trabalhadores desligados da cooperativa, afirmou que o principal problema enfrentado pelo grupo não é apenas o atraso nos pagamentos.
“Se você não tem dinheiro, você tem que explicar. O problema é que não nos pagaram e também não nos explicaram. As pessoas precisam saber o que vai acontecer para poder se organizar”, afirmou.
Segundo ele, o grupo reúne trabalhadores de diferentes regiões da área de atuação da cooperativa. Muitos dedicaram boa parte da vida profissional à empresa.
Os relatos enviados durante a entrevista ajudam a dimensionar essa realidade. De São Gabriel, JHB Alves contou que trabalhou 22 anos na Cotribá. Demitido em março, afirmou que completaria três meses aguardando o pagamento da rescisão. “Agora dia 16 vai fazer três meses que fui demitido e só ficam enrolando”, escreveu.
Em Ibirubá, Leonel Lopes Pereira relatou uma trajetória ainda mais longa. Foram 39 anos de trabalho até o desligamento ocorrido em abril.
Outros relatos mostram que a situação não se restringe ao tempo de serviço. Claudia Dalben afirmou estar há quase três meses aguardando o recebimento dos valores. Já Andrielly Veles resumiu sua situação em uma frase curta, mas carregada de significado: “Dois meses demitida e sem retorno nenhum”.
IMIGRANTE AGUARDA ACERTO PARA VOLTAR PARA CASA
Entre os depoimentos mais marcantes compartilhados por Lauro Campos está o de um trabalhador senegalês que atuava em uma unidade da cooperativa em Ibirubá. Segundo ele, o ex-funcionário planejava utilizar a rescisão para retornar ao seu país de origem e reencontrar a família. O plano ficou pelo caminho. “Ele queria voltar para a família dele. Está aqui, longe de casa, sem saber o que fazer”, relatou. Há também histórias de trabalhadores próximos da aposentadoria, pessoas que passaram a vida inteira exercendo a mesma função e que agora enfrentam o desafio de recomeçar.
“Tem gente que trabalhou 20, 30, 40 anos dentro da cooperativa. Tem pessoas que tiveram que vender carro, vender bens de dentro de casa para conseguir enfrentar esse período”, contou Lauro.
As consequências da crise não atingem apenas os trabalhadores. Elas alcançam famílias inteiras.
Caroline Seibel de Oliveira, esposa de um dos ex-funcionários, utilizou o espaço da transmissão para relatar a realidade vivida dentro de casa. “Meu marido é um deles. Temos filha pequena, contas para pagar e precisamos nos virar”, escreveu.
Em outro comentário, Stefani da Rosa expressou a indignação de quem acredita ter cumprido sua parte até o último dia de trabalho. “Assinamos os 30 dias como pedido, cumprimos com a nossa parte todo dia. E onde está o mínimo do nosso direito? Nem uma resposta.”
Apesar das críticas, os trabalhadores insistem que não torcem contra a cooperativa.
Ao longo da entrevista, Lauro Campos repetiu mais de uma vez que o desejo do grupo é ver a recuperação da Cotribá acontecer.
“Nós não estamos torcendo contra a Cotribá. Queremos que ela se recupere. Mas estamos falando de pessoas, de famílias. A parte social não está sendo feita”, afirmou.
A declaração resume um sentimento presente em diversos relatos recebidos pela reportagem. Muitos dos trabalhadores que hoje cobram respostas foram os mesmos que comemoraram os anos de crescimento da cooperativa, defenderam a instituição e ajudaram a construir sua presença em dezenas de municípios gaúchos. Agora, observam de fora uma história da qual também fizeram parte.
A Cotribá informou, por meio de publicação oficial na quarta-feira (17), que iniciou o pagamento do primeiro lote de verbas rescisórias dentro das negociações conduzidas com o sindicato da categoria.





















