26 de Maio, 2026 14h05mIbirubá em destaque por Jardel Schemmer- Repórter Rádio Cidade 104.9

Debate em Ibirubá alerta para avanço dos crimes virtuais e reforça importância da denúncia no combate à violência infantil

A mesa redonda encerrou deixando um alerta claro: o silêncio ainda é um dos maiores aliados dos abusadores, e a denúncia continua sendo a principal ferramenta de proteção às crianças e adolescente.

A violência sexual contra crianças e adolescentes deixou há muito tempo de acontecer apenas de forma presencial. Hoje, a internet, as redes sociais, os jogos online e até ferramentas de inteligência artificial passaram a integrar um cenário cada vez mais preocupante para autoridades e órgãos de proteção à infância. O assunto esteve no centro de uma ampla mesa redonda realizada em Ibirubá, reunindo representantes do Judiciário, segurança pública, Conselho Tutelar e rede de proteção para discutir prevenção, denúncias e os desafios atuais no enfrentamento desses crimes.
O debate aconteceu na Câmara Municipal de Vereadores dentro das ações do Maio Laranja, campanha nacional de conscientização e combate ao abuso e à exploração sexual infantil. Durante mais de duas horas, autoridades e representantes de diferentes setores compartilharam experiências, alertas e orientações sobre a importância da atuação conjunta entre poder público, famílias, escolas e comunidade.
A mediação da mesa ficou sob responsabilidade de Joice Binsfeld, representando o Comdica de Ibirubá, e Rubia Ribas. Também participaram o juiz de direito João Gilberto Engelmann, a delegada Diná Rosa Aroldi, o defensor público Victor Hugo de Almeida Machado, representantes da Brigada Militar, Corpo de Bombeiros Militar e o conselheiro tutelar Douglas Rodrigues.
Representando o Comdica, Joice Binsfeld explicou que o encontro faz parte de um trabalho que já vem sendo desenvolvido ao longo deste ano junto às escolas do município através do projeto “Pequenos Protegidos”. Segundo ela, a intenção da mesa redonda foi justamente ampliar o debate e aproximar ainda mais os órgãos de proteção da comunidade.
“A gente já iniciou ações junto às escolas do município e hoje promovemos esse encontro trazendo autoridades e toda a rede de proteção para discutir um tema que precisa ser falado constantemente. O combate ao abuso e à exploração sexual infantil não pode acontecer somente em maio, ele precisa ser debatido durante todo o ano”, destacou.
Joice também ressaltou a importância de envolver toda a sociedade na proteção das crianças e adolescentes, reforçando que o enfrentamento à violência depende de informação, prevenção e coragem para denunciar.
Ao longo do encontro, um dos temas que mais gerou preocupação foi o crescimento dos crimes praticados no ambiente virtual. A representante da Rede de Proteção, Rubia Ribas, destacou que a internet trouxe desafios cada vez maiores para as famílias e para os órgãos responsáveis pelo acolhimento e acompanhamento das vítimas.
“Foram mais de duas horas de conversa e ainda assim o assunto renderia muito mais. Hoje os crimes virtuais estão muito presentes e isso traz enormes desafios para toda a rede de proteção. A internet aproximou perigos que muitas vezes entram dentro de casa através do celular, dos jogos e das redes sociais”, afirmou.
Rubia explicou que grande parte das discussões girou em torno da necessidade de os pais acompanharem de forma mais próxima a vida digital dos filhos. Segundo ela, muitas famílias ainda têm receio de acessar celulares ou monitorar conteúdos consumidos pelas crianças e adolescentes por acreditarem estar invadindo sua privacidade.
“Foi unânime entre as autoridades presentes que os pais têm não apenas autoridade, mas também responsabilidade sobre isso. A criança e o adolescente têm uma privacidade regrada. Os pais precisam saber com quem os filhos conversam, o que acessam, quais jogos utilizam e quais redes sociais frequentam. Muitas vezes esse acompanhamento pode evitar situações gravíssimas”, ressaltou.
Durante sua fala na mesa redonda, o juiz João Gilberto Engelmann chamou atenção para a evolução dos crimes sexuais contra crianças e adolescentes ao longo dos anos e para a forma como a tecnologia passou a ser utilizada pelos abusadores.
Segundo o magistrado, antigamente muitos criminosos evitavam utilizar recursos digitais justamente pelo risco de rastreamento e quebra de sigilo. Hoje, porém, a internet abriu espaço para uma atuação ainda maior dessas redes criminosas.
“Existe atualmente uma rede internacional de compartilhamento de imagens e vídeos envolvendo crianças e adolescentes. E agora temos também um novo desafio, que é o uso da inteligência artificial para manipulação de vídeos e imagens envolvendo menores”, alertou.
O juiz também mencionou a existência da chamada dark web, ambiente clandestino da internet onde circulam conteúdos relacionados à exploração infantil e que, segundo ele, envolve pessoas de diferentes classes sociais, idades e nacionalidades.
Outro ponto que chamou atenção durante o debate foi a citação de um caso considerado inédito no país: uma condenação por estupro virtual de vulnerável. Conforme relatado pelo magistrado, mesmo sem contato físico, a Justiça entendeu que houve violência sexual porque o abusador manipulava a vítima através de videochamadas.
“A criança era induzida a praticar atos que o abusador faria presencialmente. A Justiça entendeu que não existia distinção fundamental entre o ato físico e o virtual naquele contexto”, explicou.
O conselheiro tutelar Douglas Rodrigues também reforçou durante entrevista que o trabalho do Conselho Tutelar passa principalmente pela prevenção, orientação e proteção das vítimas.
Segundo ele, muitas vezes os casos começam a ser percebidos através de mudanças bruscas no comportamento das crianças e adolescentes.
“A criança começa a se isolar, muda o comportamento, fica mais agressiva, retraída ou demonstra medo excessivo. São sinais que precisam ser observados pela família, pela escola e pela comunidade”, destacou.
Douglas explicou que toda denúncia recebida passa por apuração e encaminhamento aos órgãos competentes, como Polícia Civil, Ministério Público e Judiciário.
“Quando uma situação chega até nós, o principal objetivo é proteger essa criança imediatamente e garantir que todos os encaminhamentos sejam feitos. Nenhuma suspeita pode ser ignorada”, afirmou.
O conselheiro também reforçou o alerta sobre os perigos das redes sociais e da exposição de crianças e adolescentes na internet.
“Os crimes virtuais acontecem cada vez mais. Por isso os pais precisam acompanhar os celulares, ter acesso às redes sociais e supervisionar o que os filhos acessam. Muitas vezes a privacidade de hoje pode acabar se transformando num grande problema amanhã”, alertou.
Outro aspecto debatido durante a mesa redonda foi o papel fundamental das escolas na identificação precoce de possíveis vítimas de abuso. Conforme destacado pelas autoridades, professores e equipes pedagógicas muitas vezes são os primeiros a perceber alterações comportamentais que indicam situações de violência.
Ao final do encontro, os participantes reforçaram que o combate à violência sexual infantil é uma responsabilidade coletiva e depende da união entre famílias, escolas, órgãos públicos e comunidade. A orientação é que qualquer suspeita seja imediatamente denunciada ao Conselho Tutelar, Brigada Militar, Polícia Civil ou demais órgãos de proteção.
A mesa redonda encerrou deixando um alerta claro: o silêncio ainda é um dos maiores aliados dos abusadores, e a denúncia continua sendo a principal ferramenta de proteção às crianças e adolescente. Disk 100

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