
A Casa de Cultura de Ibirubá foi palco, na segunda-feira (16), de um dos mais importantes debates sobre o futuro da agricultura regional. O Seminário Regional de Solos – Agricultura Conservacionista e Resiliente: Manejo de Solo e Água reuniu agricultores, estudantes, pesquisadores, técnicos, cooperativas, lideranças políticas e representantes de diversas instituições ligadas ao agronegócio para discutir alternativas capazes de tornar os sistemas produtivos mais eficientes diante das frequentes adversidades climáticas que atingem o Rio Grande do Sul.
Promovido pela Administração Municipal, Embrapa, Emater/RS-Ascar, Instituto Federal do Rio Grande do Sul – Campus Ibirubá e Coopeagri, o encontro teve como foco principal a conservação dos solos, a retenção de água nas propriedades e a construção de sistemas agrícolas mais resilientes. A proposta surgiu em um momento em que produtores convivem com perdas provocadas por estiagens prolongadas, chuvas intensas e oscilações climáticas cada vez mais frequentes, fatores que afetam diretamente a produtividade, a renda das famílias rurais e a economia dos municípios.
Na abertura do evento, o presidente da Coopeagri, Lecian Gilberto Conrad, destacou que a agricultura regional está diante de uma oportunidade histórica de transformação. Segundo ele, os avanços conquistados nas últimas décadas foram fundamentais para elevar os níveis de produção, mas os desafios atuais exigem um novo olhar sobre as práticas adotadas dentro das propriedades.
“Entendemos que chegou o momento de nós avaliarmos quais práticas estamos desenvolvendo e temos absoluta certeza de que já construímos um bom caminho. Mas agora discutimos um novo ciclo de desenvolvimento e produtividade a partir do aperfeiçoamento das práticas agronômicas”, afirmou.
Lecian ressaltou que a construção desse novo modelo produtivo depende da união de todos os segmentos ligados ao agronegócio.
“Hoje não basta mais pregar a importância desse tema. Precisamos depositar recursos financeiros, conhecimento e desenvolver ações concretas que possam reestruturar os nossos solos e responder aos desafios que enfrentamos na agricultura. Agricultores, cooperativas, assistência técnica, pesquisa, indústria de máquinas, equipamentos e insumos precisam abraçar essa causa para auxiliar os produtores e garantir mais rentabilidade ao setor.”
A prefeita Jaqueline Brignoni Winsch destacou que o tema discutido durante o seminário está diretamente ligado ao futuro econômico dos municípios e à sustentabilidade das propriedades rurais. Filha e esposa de agricultor, ela lembrou que os produtores enfrentam desafios cada vez maiores e que a qualificação técnica tornou-se indispensável.
“Hoje não há mais espaço para amadorismo na agricultura. O agricultor se especializou, sabe o que está fazendo e busca constantemente melhorar seus resultados. Mas continua dependente de fatores climáticos que muitas vezes fogem do seu controle. Por isso precisamos aprender cada vez mais e também lutar por políticas públicas que reconheçam a importância da agricultura.”
A prefeita também ressaltou o impacto que o desempenho do setor agrícola exerce sobre toda a economia regional.
“Quando a agricultura vai mal, todos os setores sentem. Os municípios arrecadam menos, as empresas vendem menos e os investimentos diminuem. Por isso precisamos fortalecer a agricultura não apenas no discurso, mas na prática. O Brasil forte é aquele que produz.”
O primeiro painel do seminário foi conduzido pelo engenheiro agrônomo e extensionista da Emater/RS-Ascar, Ronaldo Carbonari, coordenador técnico do Programa Terra Forte. Com base em levantamentos realizados em mais de 1.500 glebas agrícolas espalhadas pelo Rio Grande do Sul, Carbonari apresentou um panorama detalhado sobre as condições dos solos gaúchos e defendeu uma mudança de postura na gestão das propriedades.
Segundo ele, os resultados obtidos mostram que muitos dos problemas enfrentados atualmente não estão relacionados apenas ao clima, mas também às limitações acumuladas dentro das próprias áreas cultivadas.
“Estamos iniciando um novo ciclo. Durante muitos anos investimos fortemente em produtos e tecnologias. Agora precisamos associar isso à agricultura de processos. Temos genética, insumos e ferramentas altamente desenvolvidas, mas elas só entregam seu potencial quando o solo está preparado para receber essas tecnologias.”
Carbonari explicou que os diagnósticos realizados pelo Programa Terra Forte identificaram deficiências relacionadas à cobertura do solo, compactação, baixa diversificação de culturas e problemas químicos que reduzem a capacidade produtiva das lavouras.
“O que tratamos aqui foi justamente mostrar que os diagnósticos apontam os caminhos para as soluções. Precisamos de lavouras mais adaptadas aos períodos de excesso e falta de chuva, mantendo estabilidade de produção. Isso exige correção química, manejo físico adequado, incremento de matéria orgânica, cobertura permanente e maior infiltração de água.”
Outro aspecto destacado pelo extensionista foi a necessidade de abandonar soluções genéricas.
“Não é mais possível aplicar o mesmo conceito para todas as propriedades. Cada área tem suas características e precisa de um projeto personalizado. Quem fizer isso produzirá mais, terá maior estabilidade e estará melhor preparado para enfrentar as variações climáticas que já fazem parte da realidade da agricultura.”
Ao apresentar dados do programa, Carbonari revelou que grande parte das áreas analisadas ainda apresenta limitações importantes. Entre elas estão a baixa presença de plantas de cobertura, a ocorrência de erosão, a deficiência de cultivos diversificados ao longo do ano e problemas relacionados à infiltração e armazenamento de água no perfil do solo.
Segundo ele, a agricultura do futuro dependerá da combinação de diversas práticas conservacionistas.
“Se a resiliência climática viesse apenas com calcário, apenas com adubo ou apenas com bioinsumos, já teríamos resolvido o problema. Ela surge da integração de todas essas ações. É a soma das práticas que constrói sistemas mais preparados para enfrentar extremos climáticos.”
Na sequência, o pesquisador da Embrapa Trigo, José Eloir Denardin, trouxe ao público uma reflexão profunda sobre os desafios estruturais da agricultura gaúcha. Referência nacional em conservação do solo e sistema plantio direto, Denardin afirmou que o Rio Grande do Sul possui potencial para alcançar produtividades muito superiores às atuais, mas precisa corrigir gargalos históricos.
“O desafio de hoje é mostrar soluções para problemas que estamos vivenciando. A nossa produtividade
continua instável porque o nosso clima é instável. Precisamos aprender a conviver com essa realidade e utilizar tecnologias que permitam reduzir seus impactos.”
Durante sua palestra, o pesquisador fez uma distinção entre o plantio direto convencional e o verdadeiro Sistema Plantio Direto, ressaltando que muitos produtores adotam apenas parte dos princípios necessários para garantir a sustentabilidade do sistema.
“O verdadeiro sistema plantio direto exige diversificação de culturas, correção da fertilidade, manejo da água, controle da compactação e atividade biológica permanente. Não basta apenas deixar palha sobre o solo.”
Uma das mensagens mais fortes da palestra esteve relacionada ao papel das raízes na construção da estrutura dos solos.
“A palha protege o solo. Quem constrói o solo são as raízes. É a atividade biológica que aumenta a infiltração de água, melhora a circulação de nutrientes, reduz a erosão, favorece o crescimento radicular e cria resiliência diante dos períodos de déficit hídrico.”
Denardin também apresentou dados que mostram a diferença entre os maiores produtores de soja do país e a realidade média do Rio Grande do Sul. Segundo ele, enquanto produtores de alta performance alcançam resultados superiores a 130 sacas por hectare, a média gaúcha permanece próxima de 46 sacas, com tendência de queda.
“Temos potencial para produzir muito mais. O problema é que continuamos convivendo com limitações físicas e químicas dentro das lavouras. Precisamos corrigir esses obstáculos para alcançar produtividade estável e sustentável.”
Outro ponto enfatizado pelo pesquisador foi a necessidade de recuperar práticas conservacionistas que perderam espaço ao longo dos anos, como a semeadura em nível, o terraceamento e o manejo adequado da fertilidade em profundidade.
“Se a água da chuva escorreu da lavoura, ela já está causando prejuízo. O desafio é manter essa água infiltrando no solo e disponível para as plantas. É isso que gera estabilidade produtiva.”
Ao longo da tarde, ficou evidente que os desafios da agricultura moderna vão muito além da escolha de sementes ou da aplicação de insumos. O seminário reforçou a importância de enxergar o solo como patrimônio estratégico da propriedade rural e como elemento central para a construção de sistemas produtivos mais eficientes.























