
Há dez anos, a empresária Simone Barbosa, de Ibirubá, e a policial militar Lisiane “Lisi” Santos, que atua em Tapera, iniciaram uma trajetória que começou de forma discreta, entre conversas e amizades em comum, mas que se transformou em uma história marcada por companheirismo, superação e a busca pela felicidade. Hoje, casadas há sete anos, elas dividem muito mais do que a paixão pelo futsal: compartilham sonhos, responsabilidades, conquistas e a certeza de que fizeram a escolha certa ao seguirem juntas.
Embora fossem conhecidas no meio esportivo, as duas não mantinham proximidade. Acostumadas a se enfrentar em quadras da região, jamais imaginaram que o destino reservaria algo além da rivalidade esportiva.
“Eu conhecia a Lisi do futsal, mas a gente não tinha intimidade nenhuma. Foi através de amigos em comum que começamos a conversar. E eu comecei a perceber que tinha alguma coisa diferente nela. Não sabia explicar o que era”, lembra Simone.
Naquele momento, ela vivia uma fase de recomeço. Após o fim de um casamento de 14 anos, durante o qual construiu uma família e se tornou mãe de três filhos, não procurava um novo relacionamento. Muito menos imaginava viver uma história ao lado de outra mulher.
“Eu nunca tinha pensado nisso. Não era algo que fazia parte dos meus planos. Mas quanto mais a gente conversava, mais eu queria conversar. Eu gostava da companhia dela, da forma como ela me fazia sentir.”
Para Lisi, natural de Saldanha Marinho, criada durante muitos anos em Colorado e atualmente policial militar em Tapera, a aproximação também aconteceu de forma natural.
“Foi amor antes de qualquer outra coisa. Foi admiração, carinho, cuidado. A gente começou a se conhecer melhor e eu percebi o quanto gostava dela. Não foi uma coisa forçada, simplesmente aconteceu”, conta.
As conversas se tornaram parte da rotina. Muitas vezes atravessavam a madrugada. O sentimento crescia à medida que descobriam afinidades e percebiam o quanto gostavam de estar juntas.
“Quando eu conheci a Simone de verdade, minha vida mudou completamente”, afirma Lisi.
Mas assumir aquele relacionamento significava enfrentar desafios importantes. Simone carregava preocupações que iam além dos próprios sentimentos. Como mãe, seu maior receio era a forma como os filhos seriam impactados pela situação.
“Meu medo nunca foi por mim. Eu me preocupava com eles. Pensava em como seriam tratados, no que as pessoas poderiam falar e em como tudo isso poderia afetar a vida deles.”
Foi justamente dentro de casa que encontrou uma das maiores demonstrações de apoio.
Ela lembra que ainda tentava entender tudo o que estava acontecendo quando ouviu uma frase do filho Alan que mudaria sua forma de enxergar a situação.
“Ele disse que, se fosse a Lisi, ele aceitaria. Aquilo me marcou muito. Às vezes a gente acha que as crianças não entendem, mas elas entendem muito mais do que imaginamos. Naquele momento eu senti um alívio enorme.”
O apoio também veio da pessoa de quem mais temia uma reação negativa: o pai.
Durante meses, Simone evitou falar sobre o relacionamento. O medo da rejeição fazia com que adiasse a conversa. Até que descobriu que a realidade era muito diferente do que imaginava.
“Meu pai disse que eu era filha dele e que o importante era me ver feliz. Aquilo me emocionou profundamente. Eu tinha criado um medo enorme dentro de mim e recebi acolhimento.”
Lisi também viveu um momento importante ao assumir oficialmente a relação para a família. Embora já tivesse tido relacionamentos anteriores com mulheres, foi ao lado de Simone que decidiu tornar a história pública.
“Não foi fácil para ninguém. Mas os nossos pais nos amam. Com o tempo, eles entendem que o mais importante é ver os filhos felizes.”
Ao longo dos anos, as duas encontraram apoio também no esporte, entre amigos e nas comunidades onde vivem. O respeito recebido ajudou a fortalecer ainda mais a relação.
Hoje, a rotina é semelhante à de qualquer casal. Entre o trabalho, os compromissos familiares e os jogos de futsal, elas fazem questão de cultivar diariamente a parceria que construíram.
“A gente se ajuda em tudo. Um faz uma coisa, o outro faz outra. É uma relação baseada em companheirismo”, explica Simone.
Para Lisi, o segredo está nas pequenas atitudes.
“A gente gosta de estar junto. Se uma vai jogar, a outra acompanha. Se uma tem um compromisso, a outra participa. Não é obrigação. É porque a gente gosta da companhia uma da outra.”
Essa cumplicidade também aparece nos gestos mais simples.
“Se eu compro alguma coisa para mim, lembro dela. Se ela gosta de alguma coisa, eu quero compartilhar. A gente se preocupa uma com a outra o tempo todo”, acrescenta Simone.
Quando perguntadas sobre a maior conquista desses dez anos, a resposta não envolve patrimônio, trabalho ou realizações materiais.
“Felicidade”, responde Simone sem hesitar.
“Hoje eu sei o que é amar de verdade. É cuidado, respeito, parceria e vontade de construir uma vida ao lado de alguém.”
Lisi concorda. “Quando existe amor de verdade, a gente quer ver a outra pessoa feliz. É isso que faz tudo valer a pena.”
Dez anos depois das primeiras conversas iniciadas graças ao futsal, Simone e Lisi seguem construindo uma história baseada em respeito, admiração e afeto.























