24 de Abril, 2026 10h04mAgricultura por JORNALISTA CRISTIANO LOPES

Soja no RS: boas safras não bastam para tirar produtor da crise

Levantamento aponta que saldo líquido acumulado em 14 safras cobre apenas parte do endividamento do agro gaúcho.

Mesmo em anos em que a receita bruta aparentou reação, o desafio do produtor gaúcho segue sendo transformar produção em resultado líquido capaz de recompor perdas, reduzir dívidas e reconstruir capital. É essa conclusão que emerge do estudo elaborado por Márcio Ücker, baseado em produtividade oficial da Conab, custos totais de produção, área plantada, preços médios de comercialização e registros climáticos da estação de Linha Uma, no interior de Ibirubá.

No recorte entre as safras 2011/12 e 2024/25, o levantamento identificou 10 safras com resultado positivo e quatro negativas. Ainda assim, o saldo líquido acumulado estimado ficou em R$ 24,68 bilhões — valor distante do passivo estimado pela Farsul.

“À primeira vista, o saldo parece expressivo, mas ele perde força quando comparado ao tamanho real do endividamento do setor”, afirma Ücker. “Mesmo somando todo o resultado líquido da série, ainda faltariam cerca de R$ 48,14 bilhões para cobrir esse passivo.”

O estudo questiona uma leitura recorrente no debate público, de que uma boa safra seria suficiente para reorganizar a vida financeira do produtor.

“Há uma ideia de que basta colher bem para sair da crise. Os números mostram que não é assim. Muitas vezes a renda de uma safra favorável apenas recompõe perdas anteriores e garante fôlego para continuar produzindo”, diz.

Soja concentra peso do custeio, mas problema vai além da “dívida de planta”

Do total de R$ 72,82 bilhões estimados pela Farsul, R$ 36,75 bilhões estão ligados ao crédito de custeio. Dentro desse montante, a soja concentra parcela relevante. Relatórios econômicos da Federação apontaram que soja e milho respondiam por cerca de 60% da carteira de custeio em 2025, ante 75% no ano anterior.

Mas, segundo Ücker, reduzir o problema apenas à chamada dívida de planta simplifica demais o quadro.

“O gargalo não é só o financiamento da safra atual. O produtor carrega custos operacionais, parcelas de investimentos, juros de prorrogações e passivos rolados de anos de estiagem. É isso que torna o risco estrutural”, afirma.

Para ele, esse contexto ajuda a explicar por que produtividade não é sinônimo de solvência.

“Colher mais não significa necessariamente sobrar mais. A renda adicional pode ser absorvida pelo custo financeiro e por compromissos já assumidos. Essa é a lógica de que a produtividade, sozinha, não paga a conta”, resume.

A própria metodologia do estudo reforça essa leitura ao utilizar o conceito de custo total da Conab, que considera não apenas os custos operacionais, mas também remuneração dos fatores de produção.

“Se o produtor olha só a receita bruta, pode parecer que houve sobra. Quando entram custo completo, crédito e perdas acumuladas, a margem real muda completamente”, observa.

Quantas safras seriam necessárias?

Em termos médios, o resultado líquido estadual das 14 safras fechadas foi de aproximadamente R$ 1,76 bilhão por ciclo. Mantido esse desempenho e supondo, em hipótese teórica, que todo o valor fosse destinado a amortizar dívidas, seriam necessárias cerca de 41 safras médias para liquidar o passivo atual.

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Num cenário mais otimista, considerando apenas a média das safras positivas, seriam necessárias aproximadamente 11 boas safras consecutivas. Pela mediana da série, entre 15 e 16 safras favoráveis.

“E isso sem novas secas, sem excesso de chuva, sem disparada de custos e sem novos financiamentos, o que está muito distante da realidade do Rio Grande do Sul”, ressalta Ücker.

O levantamento associa justamente as frustrações recorrentes — estiagens, excesso de chuvas, quebras produtivas e volatilidade de custos — ao ambiente de risco estrutural do campo gaúcho.

“O produtor não está lidando com problemas episódicos. Está operando em um sistema em que ganhos são frequentemente interrompidos por perdas”, sustenta.

Safra boa pode dar fôlego, não necessariamente prosperidade

Um dos pontos centrais do estudo é que, em muitos casos, o agricultor não está buscando ampliar patrimônio, mas recuperar o que perdeu em ciclos anteriores.

“Muitas vezes o produtor não está tentando ganhar dinheiro novo. Está tentando voltar ao ponto em que estava antes das perdas”, afirma Ücker.

Segundo ele, a renda de uma safra positiva costuma ser absorvida pela recomposição de prejuízos, pelo serviço da dívida e pela necessidade de manter capital de giro.

“Por isso discutir apenas produtividade ou apenas preço é insuficiente. O centro do debate precisa ser capacidade real de pagamento”, avalia.

Na avaliação do especialista, o histórico recente mostra que o setor depende menos de uma próxima boa colheita e mais de um ciclo prolongado de estabilidade.

“O campo gaúcho precisaria de muitos anos excepcionalmente favoráveis, com clima minimamente estável, custos controlados e condições financeiras compatíveis com a produção. Sem isso, a conta seguirá não fechando”, conclui.

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