16 de Janeiro, 2026 08h01mAgronegócio por Jardel Schemmer- Repórter Rádio Cidade 104.9

A agricultura familiar vive um dos momentos mais duros da sua história recente no Alto Jacuí

Lideranças sindicais analisam um ano de perdas, endividamento e incertezas para a agricultura familiar

Entre crise, endividamento e clima instável, lideranças sindicais fazem balanço de 2025 e projetam caminhos para 2026

O ano de 2025 impôs uma das maiores provas de resistência à agricultura familiar da região do Alto Jacuí. Frustração de safra, queda acentuada no preço do leite, endividamento elevado e incertezas nas políticas públicas marcaram a rotina de quem produz no campo. Em entrevista, a presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Quinze de Novembro, Eduarda Klein, e o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ibirubá, Leonir Fior, traçaram um retrato direto e humano do campo, apontando desafios urgentes e caminhos possíveis para 2026.
Aos poucos, a voz firme e jovem de Eduarda Klein se consolidou como referência em Quinze de Novembro. Eleita presidente após anos de atuação como vice, ela chegou ao cargo em um dos períodos mais delicados da agricultura familiar recente.

“Foi um ano de muitos desafios. Frustração de safra, preço do leite despencando, dificuldades com o Proagro e um movimento sindical fragilizado em função das questões com o INSS. Mas era isso que eu sempre quis: estar ali para tentar ajudar a enfrentar esses problemas”, avaliou.

Eduarda reconhece que a chegada de uma liderança jovem ainda gera desconfiança em parte da base, mas defende que o diálogo aberto é o maior ativo do sindicato. “Minha sala está sempre aberta. Eu quero aprender com quem tem mais experiência. O sindicato só faz sentido se estiver próximo do agricultor”, afirmou. Segundo ela, 2025 não foi um ano de alívio financeiro, mas algumas pautas avançaram, especialmente a prorrogação de dívidas junto aos bancos, fruto da mobilização sindical regional e estadual.
Entre os pontos mais críticos, a presidente destacou o enfraquecimento do Proagro, cada vez menos acessível aos agricultores que já acionaram o programa em anos anteriores, e a crise persistente do leite. “O agricultor entrega sem saber quanto vai receber. Em poucos meses, muitos perderam quase um real por litro. Isso inviabiliza qualquer planejamento”, alertou. Para Eduarda, a importação de leite de países vizinhos, sem a mesma exigência sanitária imposta ao produtor brasileiro, agrava ainda mais o cenário.
A jovem dirigente também chamou atenção para o impacto da crise envolvendo convênios do INSS e entidades nacionais, que atingiu diretamente os sindicatos na base. “Houve perda de associados e impacto financeiro. Muitos sindicatos precisaram se reinventar para continuar funcionando”, relatou, destacando que, apesar disso, o sindicato de Quinze de Novembro manteve atendimento ativo e encerrou o ano com cerca de 760 associados em dia.
Ao projetar 2026, Eduarda apontou como eixos centrais a luta por um plano safra mais realista, a defesa do produtor de leite, o debate sobre previdência rural e o incentivo à gestão da propriedade.

“A agricultura hoje precisa ser pensada com planejamento. Produzir bem da porteira para dentro já não basta”, afirmou.

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A dirigente também ressaltou a importância da sucessão familiar, defendendo que os jovens sejam incluídos nas decisões da propriedade desde cedo. “Filho não pode ser só mão de obra. Precisa ser preparado para ser sucessor.”

O DINHEIRO PAROU DE CIRULAR 
Da mesma forma, Leonir Fior trouxe um olhar experiente e direto sobre a realidade enfrentada pelos agricultores de Ibirubá e da região. Para ele, 2025 foi um ano em que a agricultura familiar esteve “com a corda no pescoço”. “Endividamento no limite, frustração de safra, dificuldade de acesso ao crédito e problemas em empresas estratégicas do município fizeram o dinheiro parar de circular”, resumiu.
Leonir destacou que o nível de endividamento dos produtores atingiu patamares inéditos. “Os bancos estão mais restritivos, exigindo garantias que muitos agricultores já não têm. Isso obriga o produtor a reduzir tecnologia, o que compromete o solo e a produtividade futura”, alertou. Mesmo iniciativas positivas, como programas de recuperação de solo, foram vistas como paliativas diante da dimensão da crise.
No setor leiteiro, o presidente do sindicato de Ibirubá foi categórico ao apontar a importação como principal fator de desvalorização. “Em cinco meses, o produtor perdeu mais de um real por litro. Muitos estão pagando para produzir. Isso não se sustenta”, afirmou, relatando casos de agricultores abandonando uma atividade exercida há décadas. Para ele, o leite sempre foi a principal renda mensal da pequena propriedade e sua desvalorização acelera o êxodo rural.
Leonir também abordou a dificuldade da sucessão familiar, agravada pela baixa rentabilidade. “Como convencer um filho a ficar na propriedade se não sobra nada no fim do mês?”, questionou. Segundo ele, a mecanização ajuda, mas ainda é inacessível para a maioria. A consequência é um interior cada vez mais envelhecido e com menos produtores ativos.
Sobre 2026, Leonir demonstrou cauteloso otimismo com a safra de verão, favorecida pelas chuvas regulares até o momento. “Se o clima ajudar, teremos uma boa colheita. Mas o preço não deve reagir muito. O agricultor vai precisar usar o que entrar para honrar compromissos antigos”, avaliou. Ele reforçou a necessidade de prudência nos investimentos e alertou que a troca de máquinas, neste momento, pode agravar ainda mais o endividamento.
Ambos convergiram em um ponto central:

A agricultura familiar segue sendo a base econômica dos municípios, mas precisa de políticas públicas mais efetivas, valorização da produção e segurança para planejar o futuro.

Entre esperança e preocupação, o campo entra em 2026 com fé na safra, mas consciente de que apenas produtividade não basta. Sem preço justo, crédito acessível e apoio consistente, o risco é que cada nova colheita traga menos agricultores e mais incertezas.

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