
Muito antes das redes sociais anunciarem programações e abadás, o telefone da família Wolfarth já tocava ainda em setembro. Do outro lado da linha, representantes de blocos queriam garantir presença nas noites embaladas pela Estrela do Mar. “Era um carnaval sadio, o pessoal se organizava o ano inteiro. Os blocos queriam saber onde a banda ia tocar para já se programar”, relembra o contrabaixista e vocalista Marcos Wolfarth, um dos pilares do grupo.
A agenda era intensa e exigia preparo físico e logístico. A jornada começava na sexta-feira e só terminava na madrugada da Quarta-feira de Cinzas. Cada noite tinha endereço certo e público fiel.
A sexta-feira marcava o pontapé inicial em Campina Redonda, no município de Espumoso. O ginásio se transformava em ponto de encontro de até 50 blocos uniformizados. Anos depois, o evento migrou para o Salão Paroquial de Selbach, mantendo o mesmo entusiasmo.
No sábado, o CarnaChoppe de Arroio Bonito, Não-Me-Toque, misturava a tradição germânica do chope com o ritmo quente do Carnaval. Já o domingo, na Linha Floresta, em Selbach, era considerado um dos ápices da maratona.
“Chegamos a ver mais de 60 blocos em uma única noite. Teve vez de bloco precisar voltar porque não tinha mais espaço”, conta Marcos.
A segunda-feira, que durante anos foi realizada em Victor Graeff, mais tarde encontrou novo endereço em São Pedro, interior de Tapera. O encerramento, na terça-feira, acontecia nas Três Comunidades, em Arroio Grande – Selbach, fechando a programação em clima de celebração coletiva.
Entre caminhões de som, montagem de palco e deslocamentos quase diários, a banda precisava acompanhar também as tendências musicais. O auge do Axé Music dominava as pistas, com sucessos baianos que ganhavam coro nos salões lotados. A voz de Roseli Wolfarth, irmã de Marcos, tornava-se um dos símbolos daquela fase. “Arerê explodia quando começava. O pessoal já vinha coreografado”, lembra.
Ainda assim, a Estrela do Mar fazia questão de preservar as raízes. Marchinhas tradicionais permaneciam no repertório como ponte entre gerações. “A gente sempre mantinha a marchinha raiz. ‘O Jardineiro’, por exemplo, era para acordar o carnaval e envolver todo mundo, dos mais jovens aos mais antigos”, destaca o músico.
Segundo Marcos, havia também uma organização que fortalecia o espírito comunitário. “A exigência era que os blocos viessem uniformizados e se apresentassem. Isso criava identidade e respeito entre todos”, enfatiza.
Com o passar dos anos, mudanças culturais e o encerramento de bailes tradicionais reduziram o espaço desse formato de Carnaval na região. A própria família Wolfarth esteve à frente do Carnaval das Crianças no Clube União Operária, outra iniciativa que marcou época.
Agora, porém, a história pode ganhar um novo capítulo. Movido pela saudade e pelo desejo de reconectar a comunidade, Marcos projeta a retomada em 2027. “Não serão cinco noites como antes, mas queremos pelo menos uma noite intensa para adultos e uma tarde especial para as crianças. Um Carnaval à Moda Antiga”, revela.
A proposta é resgatar a essência dos blocos, dos salões decorados e da convivência que transformava fevereiro em um mês de celebração coletiva no Alto Jacuí.






















